A “naturalidade” dos gêneros

30 ago
E o pavor de que essa natureza não exista

AK4s

Nada pode malassombrar mais os corações conservadores do que as liberdades individuais e coletivas. Senhores dos corpos e das vidas alheias, esses homens e mulheres apresentam livros sagrados (certos artigos científicos e bíblias) para justificar a natureza dos gêneros no divino ou nos corpos. Para uns, Deus fez o homem e a mulher. e qualquer um que transgrida a regra do gênero será enviado para o inferno (mas sofrerá na Terra antes), para outros, os gêneros existem nas naturezas sexuais dos humanos, determinando roupas e gostos, modos de ser e de agir, de sentar e de coexistir. Homens de certas ciências e religiosos, nada assusta mais essa laia do que a liberdade.

Uma matéria no Yahoo chocou muita gente impressionável. Um pai decidiu usar saias para dar apoio moral ao filho que sempre teve gosto por vestidos e por pintar as unhas, mas sofria na escola a repressão das crianças educadas para odiar o diferente.

A notícia: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/vi-na-internet/pai-usa-saias-para-apoiar-filho-5-anos-192554815.html

A “natureza do gênero” existe, afirmam igualmente certas ciências e certas religiões, e qualquer forma de transgressão as regras de Deus ou da “Mãe Natureza” é um pecado grave. Um pecado contra a natureza é algo quase divino, para alguns cientistas, que jamais pode acontecer sob o risco da própria Natureza se revoltar contra nós, criando tormentas psicológicas, adoeceres inventados pela psiquiatria e outros males. Noutras palavras, a natureza é para alguns cientistas exatamente que Deus é para algumas religiões, cumpre o mesmo papel.

Para alguns médicos, biólogos e psicólogos a vagina e o pênis, o sexo biológico, seria determinante no papel dos gêneros. Você usa terno e gravata porque tem um pênis entre as pernas, ela gosta de maquiagem e saia porque tem uma vagina. A transgressão a essa “norma da natureza” nada mais é que um adoecer, prescrito pela OMS…

Da mesma forma que a medicina transformou em doença a homossexualidade, a heterossexualidade, inventou uma série de parafilías, enfim, produziu um discurso científico do dogma cristão, para datar e controlar as sexualidades e os corpos, atualmente ela mantém o processo alegando que existiriam “transtornos de identidade de gênero”, onde “homens” com piroquinhas gostam de usar vestidos porque tiveram disfunções hormonais no feto, formações anormais do cérebro, educações, psicologias, as teorias são muitas. Colaboram para esse discurso de doença certas psicologias e psicanalises. Teorias e hipóteses se declaram pela boca de cientistas e jornalistas como verdades transcendentais, certezas incontestáveis de que o “transtorno” existe!

As maneiras de ser dos gêneros são pra esses cientistas universais, naturais, eternas e necessárias para a ordem e saúde social. Todos os pirocados e vaginadas devem usar roupas de homem e de mulher, respectivamente, não porque foram educados INCESSANTIMENTE a se comportarem e a imitarem os hábitos dos gêneros, mas porque esses comportamentos fluiriam naturalmente das essências masculinas e femininas presente na fisiologia. Para esses cientistas não existe um trabalho político do controle dos corpos (as crianças da escola do menino da matéria, que o humilham por transgredir a norma SOCIAL), não existem os pais que tiram os batons das mãos dos meninos, dando um tapa, reprimindo, que dão bonequinhas e casinhas às meninas, que ensinam seus filhos a tratarem as mulheres como trogloditas, que ensinam as mulheres a serem “leves” e “doces” tal qual as princesas Disney. Todo o maquinário de trabalho social para construir o comportamento dos gêneros desaparece das vistas desses cientistas-pastores. O que fica é a natureza e os pecados contra a natureza.

Esses biólogos, médicos, psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, etc. apresentam o corpo social como um dado da natureza, em todas as sociedades, em todos os tempos históricos, os homens se comportaram de maneira X, as mulheres de maneira Y. Mentira maior não há. Em dadas sociedades os homens usam saias!, ou roupas nenhuma! O vestido é um artefato de nossas sociedades, é uma criação, uma invenção que a fábula contou como sendo produto da natureza para as mulheres e os homens ficaram impossibilitados de vestir. Mesmo existindo os padrões de comportamento em todas as culturas documentadas, tais padrões são contingenciais pois não são universais, no leque dos padrões nas diferentes culturas a ausência de um, a particularidade de outro, torna todo comportamento uma contingência social.

Esse conto de fadas da ciência nos mostra os carrinhos e os aviõezinhos como tendo uma sexualidade que atrairia, tal qual um imã, os sujeitos com pênis. O pênis seria o polo oposto do imã do brinquedo, exercendo saudável atração. Não haveria um trabalho, no brincar, de formação de atores sociais necessários a um sistema contingente de sociedade, mas um produto dos genes! As mulheres não brincariam de casinha, com bonequinhas porque a nossa sociedade precisa de mulheres caseiras que esperem seus maridos todos os dias em casa, como no sonho americano, mas brincariam porquê seus corpos seriam magnetizados aos brinquedos “femininos”. Damos sexualidade aos átomos dos brinquedos.

E quando alguém ousa pecar, contra Deus ou contra a Ciência (que atualmente estão sendo quase a mesma coisa, na visão de uma parcela dos cientistas), as repressões SOCIAIS aparecem:

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comentários extraídos da matéria em 30/08/2012

Um homem que se vista de mulher e vá ser um anacoreta não encontrará no vegetal, animal ou mineral força nenhuma que o impeça de usar tais roupas e tais comportamentos socialmente construídos. A tempestade do deserto não será mais forte ou mais fraca contra o eremita travestido, as ondas do mar não devoram os travestidos. Os corpos biológicos não se revoltarão e entrarão em contagem regressiva para a destruição. Mas quando em contato com uma sociedade que entenda o “travestismo” como uma abominação, as repressões se darão.

Unindo gênero e sexualidade no mesmo bojo natural, a nossa contemporaneidade define “homossexual” qualquer homem que prefira roupas “femininas”. Uma possível “heterossexualidade” é descartada do homem que se vista como mulher, pois o corpo social não entende seus construtos como tais, e como tais, passiveis de serem, a todo tempo, reconstruídos, como verdadeiramente o são.

O maquinário social para a fabricação das normas de gênero está aí, presente nas instituições sociais, na escola, na família, na igreja, na ciência, etc. É tão presente quanto o pavor que os conservadores têm de que, no final das contas, não exista “natureza de gênero” nenhuma!, que se reconheça as imposições e se use o que se tem mais vontade! É um medo que se perceba que as pessoas são livres para vestir e se comportar como queiram, para gostar de quem queiram desde que tal gostar não caracterize uma conduta eticamente indefensável.

Aceitar que os padrões de gêneros e sexualidades são construções sociais e por isso, históricos, não necessários, fabricações humanas e mutáveis constitui o maior medo desses controladores de corpos, políticos da repressão, pois o mundo da liberdade é o verdadeiro apocalipse de seus poderes e o esmorecimento de certos dogmas científicos e religiosos.

Esses discursos pseudocientíficos morrem de medo da liberdade, pois são vômitos de cientistas e religiosos conservadores e educados a não compreenderem nada que transgrida as normas sociais. Nada pode ser mais socialmente construído que o vestir ou o estar “nu”, mas aparecem nos discursos como dados eternos, o que não são, pois mesmo em nossa sociedade o uso de roupas sofre processo histórico (como toda a sociedade), determinações contingenciais alinhando roupas aos respectivos gêneros, enfim, são fatos sociais, não existem para além do espaço da sociedade, pois são dados sociais, o que não quer dizer que não existam e não exerçam poder!

O uso de saia (ou kilt, em alguns países) não torna ninguém homem nem mulher, um corte de cabelo não torna ninguém homem nem mulher, um comportamento não torna ninguém homem nem mulher, nenhuma modificação no corpo nos torna “masculino” e “feminino”, se não uma série de modificações que são representadas pelas sociedades como tal. Nem nos torna homo ou heterossexuais essas transformações.

Morram de medo, conservadores, criem os mitos e prometam apocalipses sociais e biológicos, pois no andar da carruagem a democracia e as liberdades, as transgressões das normas de gênero não se reprimirão e invadirão as ruas e as casas, o próximo menino de vestido pode ser seu filho!

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Comentário extraído na matéria citada no dia 30/08/2012.

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Uma resposta para “A “naturalidade” dos gêneros”

  1. Tiago 30 de agosto de 2012 às 12:49 #

    As pessoas não são definíveis como os signos que criamos para elas, e concordo que seja perigoso fugir aos padrões, mas transformação é natural e é errônea a ideia de ser determinante sobre padrões sociais. Não precisa se assustar, muita coisa já deixou de ser estranha e bizarra pra ser algo comum nos dias atuais. intuição deveria ser considerado o eixo principal do carácter em formação e não simplesmente taxado de desvio de conduta, não deveria ser problema para a criança usar saias agora, como tbm não deveria ser, caso, quando crescido, resolva decidir usar.

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