The Dry Salvages

13 mar

T.S. Eliot
Tradução de Ivan Junqueira.

ImagemQuatro Quartetos, The Dry Salvages:

I

Não sei muita coisa acerca de deuses; mas creio que o rio
É um poderoso deus castanho – taciturno, indômito e intratável,
Paciente até certo ponto, a princípio reconhecido como fronteira,
Útil, inconfidente, tal um caixeiro-viajante.
Depois, apenas um problema que ao construtor de pontes desafia.
Resolvido o problema, o deus castanho é quase esquecido
Pelos moradores das cidades – sempre, contudo implacável,
Fiel às suas iras e épocas de cheia, destruidor, recordando
O que os homens preferem esquecer. Desprezado, preterido
Pelos adoradores da máquina, mas esperando, espreitando e esperando.
Seu ritmo esteve presente no quarto das crianças,
Na álea de ailantos dos quintais de abril,
No aroma das uvas sobre a mesa de outono,
E no halo vespertino dos lampiões de inverno.

O rio flui dentro de nós, o mar nos cerca por todos os lados;
O mar é também a orla da terra, o granito
Que ele penetra, as praias onde arremessa
Indícios de uma criação pretérita e diversa:
A estrela-do-mar, o caranguejo, o espinhado de baleia;
Os abismos onde oferece à nossa curiosidade
As mais delicadas algas e anêmonas marinhas.
Cara ou coroa, ele joga nossos ossos, a rede rasgada,
O covo em pedaços, o remo estilhaçado
E os utensílios de estrangeiros mortos. O mar tem muitas vozes,
Muitos deuses e muitas vozes.
O sal está na rosa silvestre,
A névoa está nos pinheiros.
O uivo do mar,
O ganido do mar, são vozes distintas
Muita vez ouvidas juntas: o queixume do cordame,
A ameaça e o afago da vaga espedaçado sobre as águas,
O distante marulho nos dentes de granitos,
O plangente aviso do vizinho promontório
Tudo são vozes do mar, a boia sibilante
Que ronda os litorais domésticos, e a gaivota:
E sob a opressão da névoa silenciosa
O sino dobra
Medindo um tempo que não é nosso, tocado pela vagarosa
Pulsação da terra, um tempo
Mais antigo que o tempo dos cronômetros, e mais antigo
Que o tempo contado pelas aflitas e aborrecidas mulheres
Em vigília, calculando o futuro
Tentando esfiapar, desmanchar, deslindar
E o passado ao futuro cerzir num remendo inconsútil,
Entre a meia noite e a aurora, quando o passado é todo decepção
E o futuro ao futuro se recusa, antes que a manhã desperte,
Quando o tempo se detém e o tempo jamais se estingue.
E a pulsação da terra, desde o princípio em tudo viva,
Tange
O sino.

 

II

Onde fim para isso tudo, para o surdo lamento,
Para o silente agonizar das flores outonais
Que as pétalas gotejam e imóveis permanecem;
Onde fim para o termo ponha ao torvelinho do naufrágio,
A súplica do osso nas areias, à insuplicável
Súplica para a calamitosa anunciação?

Não há fim, mas adição: a repisada trilha
De tantas horas mais e mesmos sempre dias,
Enquanto o coração reclama os impassíveis
Momentos da existência, entre as ruínas
Do que se acreditou fosse o mais íntegro
– O mais capaz, portanto, de abnegação.

Há uma adição final: o malogrado orgulho
Ou o despeito ante poderes malogrados,
A fria devoção que poderá passar por indevota,
Num barco à deriva e a meio naufragar,
O tácito escutar do irrecusável clamor
Do sino que anuncia a última anunciação.

Como alcança-los, aos pescadores do mar a afora
Cauda do vento adentro, onde a bruma se enrodilha?
Não poderemos conceber um tempo inoceânico
Ou oceano algum não recamado de despojos
Ou futuro que não esteja, como o passado,
Sujeito a nunca possuir destinação.

Nós os conceberemos sempre baldeando as águas,
Traçando e orçando rumos quando sopra o Noroeste
Sobre os baixios que a erosão não desfigura
Ou cavando sua paga, secando ao cais o velame
– Não como vítimas de um périplo impagável
Por arrasto incapaz de resistir a uma inspeção.

E fim não há que termo ponha a isso tudo, ao mudo
Lamento, à infindável agonia das flores agonizantes,
Ao movimento de dor que indolor e imóvel se consuma,
Aos descaminhos do mar e ao torvelinho do naufrágio,
À súplica do osso e seu Deus-Morte. Apenas a somente, penosamente suplicável
Súplica da única Anunciação.

Parece, quando alguém se torna mais velho,
Que o passado assume outra forma, e deixa de ser uma simples sequência
– Ou mesmo um desenvolvimento: este, aliás, uma parcial falácia
Endossada por noções superficiais de evolução
Que se convertem, na mente do povo, em pretexto para renegar o passado.
Nos momentos e felicidade – não a sensação de bem-estar,
Fruição, plenitude, segurança ou afeto,
Ou mesmo a de um soberbo jantar, mas a súbita iluminação –
Vivemos a experiência mas perdemos o significado,
E a proximidade do significado restaura a experiência
Sob forma diversa, além de qualquer significado. Como já disse,
A experiência vivida e revivida no significado
Não é a experiência de uma vida apenas
Mas a de muitas gerações – não esquecendo
Algo que, provavelmente, será de todo inefável:
O olhar para além da certeza
Da História documentada, a olhadela
Por cima dos ombros, ao terror primitivo lançada.
Agora, chegamos a descobrir que os momentos de agonia
(Se eles são devidos à má compreensão,
Após esperar-se pelo equivoco ou por ele haver temido,
Não vem ao caso) são a rigor permanentes,
Tocados dessa permanência que trespassa o tempo. Apreciamos isto melhor
Na agonia dos outros – experimentada de perto,
E que a nós mesmos nos envolve – do que em nossa própria.
Pois em nosso próprio passado cruzam correntes de ação,
Mas o tormento dos outros perdura como experiência
Inqualificada, incorrompida por subsequente atrito.
As pessoas mudam, e sorriem, – mas a agonia permanece.
O tempo que destrói é o tempo que preserva.
Tal o rio com sua carga de negros mortos, vacas e gaiolas,
A maçã amarga e a marca da dentada.
E o rochedo apunhalado nas águas incansáveis,
As vagas o lavam, as brumas o agasalham;
Num dia alciônico, ele é apenas um monumento,
Em tempos à navegação propícios, sempre um marco
A indicar o rumo – mas na estação das sombras,
Ou em meio a repentina fúria, ele é o que sempre foi.

III

Às vezes me pergunto se isto é o que Krishna quis dizer
– Entre outras coisas – ou apenas um meio de dizer a mesma coisa:
Que o futuro é uma canção esmaecida, uma Rosa Real ou um borrifo de alfazema
De nostálgico pesar por aqueles ainda ausentes daqui para o pesar,
Esmagado entre as folhas amarelas de um livro jamais aberto.
E toda subida é uma descida, todo retorno uma partida.
Não o podes encarar face a face, mas isto é certo:
O tempo não cura, e aqui já não está mais o paciente.
Quando parte o trem, e os passageiros se acomodam,
Com frutas, revista e cartas comerciais
(E os que vieram despedir-se já deixaram a plataforma)
Suas faces relaxam da tensão para o alívio,
Ao sonolento ritmo de muitas horas.
Adiante, viajantes! Não escapareis ao passado
Por viverdes outras vidas, ou em qualquer outro futuro;
Não sois os mesmos que deixaram a estação
Ou que a nenhum final de linha alcançarão,
Enquanto os trilhos se tocam e atrás de vós deslizam;
E sobre o convés do álacre navio,
Velando o sulco de espumas que atrás de vós se esgarça,
Não podereis pensar “o passado passou”
Ou o “o futuro à nossa frente se entreabre”.
Ao anoitecer, nos cordames e antenas
Uma voz balbucia (não aos ouvidos, todavia,
Murmurante búzio do tempo, ou em qualquer linguagem viva)
“Adiante, vós que julgais estar de viagem;
Não sois aqueles que viram o porto se afastar
Ou que jamais um dia à terra tocarão.
Aqui, entre as praias de cá e de lá
Enquanto o tempo se retira, considerai o futuro
E o passado como um juízo equidistante.
Neste momento, que de inércia não é e nem de ação,
Podeis aceitar isto – ‘em que qualquer esfera do ser
A mente humana pode estar atenta
À hora da morte’ – esta é a única ação
(E a hora da morte preside cada instante)
Que haverá de frutificar na vida dos outros.
E não penseis no fruto da ação.
Adiante.
Ó viajantes, ó marinheiros
Vós que chegais ao porto, e vós cujos corpos
Do mar processo e julgamento sofrerão,
Do mar ou de outro tribunal, este é o vosso real destino”.
Assim Krishna, quando nos campos de batalha
Arjuna escarmentou.
Boa viagem, não
– Mas adiante, viajantes.

 

IV

Senhora, cujo santuário se alteia sobre o promontório,
Orais por aqueles que se fazem ao mar, por aqueles
Que do peixe seus sustento tiram, por aqueles
Que aos lícitos negócios se dedicam
E por aqueles que os conduzem.

Rezai outra oração pelas mulheres
Que assistiram seus filhos e maridos
Partirem para nunca mais voltar
Fligia del tuo fligio
Rainha do Céu.

Rezai também uma oração pelos que estavam nos navios,
E cujo périplo findou sobre as areias, entre os lábios do mar,
Ou na escura garganta que nunca os devolverá
Ou num abismo onde do mar jamais o som dos sinos ouvirão
Angelus perpétuo.

V

Comunicar-se com Marte, conversar com espíritos,
Historiar a conduta do monstro marinho,
Traçar o horóscopo, aruspicar ou bisbilhotar o astral,
Observar anomalias grafológicas, evocar
Biografias pelas linhas da mão
Ou tragédias pelos dedos, lançar presságios
Através de sortilégios, ou folhas de chá, adivinhar o inevitável
Com cartas de baralho, embaralhar pentagramas
Ou ácidos barbitúricos, ou dissecar
A trôpega imagem dos terrores pré-conscientes
– Sondar o fundo, a tumba, ou os sonhos; tais coisas são apenas
Passatempos e drogas usuais, ou manchetes de imprensa:
E sempre o serão, sobretudo alguns deles,
Quando há nações em perigo e perplexidade
Seja nas costas da Ásia, seja na Edgware Road.
A curiosidade humana esquadrinha passado e futuro
E a tal dimensão se apega. Mas apreender
O ponto de interseção entre o atemporal
E o tempo, é tarefa para um santo
– Ou nem chega a ser tarefa, mas uma coisa dada
E tomada, na morte de uma vida vivida em amor,
Fervor, altruísmo e renúncia de si própria.
Para a maioria de nós, há somente o inesperado
Momento, o momento de dentro e fora do tempo,
O cesso de distração, perdido num dardo de luz solar,
O irrevelado tomilho selvagem, ou o relâmpago de inverno,
Ou a cascata, ou a música tão profundamente ouvida
Que aos ouvidos se furtou, mas vós sois a música
Enquanto a música perdura. Tudo isto não passa de hipótese e conjectura,
Hipótese e depois conjectura; o resto
É prece, observância às normas, disciplina, pensamento e ação.
A hipótese em parte conjecturada, o dom parcialmente compreendido, é Encarnação
Aqui se atualiza a impossível
União de esferas da existência,
Aqui passado e futuro estão
Conquistados e reconciliados,
Onde qualquer ação fosse,
De outro modo, movimento
Do que apenas é movido
Sem possuir matriz de movimento
– Guiado por demônios, ctônicos
Poderes. E a justa ação será
Livrar-se do passado e do futuro.
Para a maioria de nós, este é o alvo
Que aqui jamais se alcançará;
Nós, que imbatidos só somos
Porque em tentar perseveramos;
Nós, satisfeitos ao final
Se nosso regresso temporal nutrir
(Não muito longe do teixo)
A vida de uma terra em plenitude.

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